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Terça-feira, 24 de Junho de 2008

|Dos a Deux|


Sem nenhuma palavra... ?
É povrável.
Ah! desculpe, PROVÁVEL. Dois homens... duas solidões perdidas na espera... São dois seres infantis que se abrigam em peles adultas, se protegendo um ao outro, se protegendo um do outro, tentando se divertir para renunciar à realidade.

Eles usam chapéus moles demais para serem honestos. Os pés traçam viagens improvisadas como se fossem camundongos amedrontados. As silhuetas se desenham abrigadas sob um arco de solidão, e se desarticulam em torno de uma fatia de pão. Os olhos escapam do sono do justo. Os corpos os fazem, homem, irmão, amigo, inimigo, mestre, escravo,... Eles se chocam, se irritam, se embaraçam, se portam, se suportam,... para dar a impressão de que o tempo passa...

Eles podem tentar de tudo, pegos na armadilha, estão condenados à ficar ali, portanto não ha nada à fazer, além de esperar, neste espaço.

Antes do Fim:

Nada que eu fosse escrever seria tão autêntico e bonito quanto ao texto acima que encontrei no site do Grupo Francês Dos a Deux. Eu e a Aline tivemos o privilégio de estar na platéia assistindo a esta peça, encenada junto às comemorações dos 150 anos do Theatro São Pedro como convidados da rádio Bandnews. Para mais fotos e informações acesse: http://www.dosadeux.com/

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Segunda-feira, 16 de Junho de 2008

|Bem certinho!|

"Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e por-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana."

Mikhail Aleksandrovitch Bakunin

1814-1876

Filósofo anarquista

Antes do fim:

Leiam:

www.previdi.com.br

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Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2007

|Antes que o ano acabe|

Certa noite de chuva

Chovia muito no último dia em que vi meu pai.
Eu estava com oito anos de idade e padecia na cama com 40ºC de febre. Amígdalas.

Meus pais tinham se desquitado havia já alguns meses.
Eu, meus irmãos e minha mãe morávamos num apartamento de um quarto na Assis Brasil. Ele foi nos visitar e deparou comigo tiritando sob a coberta.

Lembro com nitidez daquela noite, dele parado à soleira da porta do quarto, de pé, olhando-me, e minha mãe ao lado, com o papel da receita do médico na mão. Ele tomou a receita e ofereceu-se para ir à farmácia. Deu as costas para o quarto, mergulhou na escuridão do corredor e foi embora. Nunca mais o vi.

Logo depois ele se mudou para outro Estado, no Centro-Oeste, e lá construiu o resto da sua vida. Um dia de 2001 alguém me disse:

- Teu pai morreu ontem.

E eu não sabia o que sentir.

Não conto essa história com ressentimento. Porque acho que entendo o que aconteceu com meu pai, naquela noite de chuva. Ao sair do apartamento, ele de fato tencionava comprar os remédios.

- Vou comprar dois de cada! - recordo que disse.

Mas meu pai era alcoolista. Na rua, deve ter cruzado pela porta de um bar, ou com um amigo, e parou para beber. Quando deu por si, era tarde para ir à farmácia e tarde para desculpar-se. Continuou bebendo, gastou todo o dinheiro e, no dia seguinte, envergonhado, preferiu não dar notícias. Assim passou-se um dia, e outro, e mais outro. De repente, havia transcorrido tempo demais para voltar atrás ou para dar explicação. Meu pai não enfrentou a própria vergonha, isso não é incomum. Acontece. É compreensível.

O que sempre me enfeitiçou nessa história, que, afinal, é parte da minha própria história, não foi o detalhe da desistência do meu pai. Não foi o abandono. Foi o momento em que meu pai decidiu entrar no bar. Uma decisão tão aparentemente irrelevante, tão fácil de ser tomada, dar dois passos da calçada em direção a uma porta aberta, e, ao mesmo tempo, uma decisão tão crucial. Fico pensando em como a vida é repleta dessas pequenas deliberações que podem alterar rumos e mover destinos. Fico pensando em todas as palavras espinhosas não ditas, nas vezes em que o sinal amarelo não foi cruzado, em que o gatilho não foi apertado, em que não liguei para ela, nas chances que deixei passar, e nas vezes em que fiz tudo isso, por bem ou por mal. Um passo, uma palavra, um gole, um pedido de perdão que não foi feito, e tudo muda. Mudou para meu pai. Mudou para mim. Neste fim de ano, o que desejo a todos é isso, que o passo seja certo, que a palavra seja macia, que o gole valha a pena, que o perdão seja pedido. E concedido.



Antes do fim:
O texto acima é de David Coimbra. Ficará fixado aqui como um incentivo de que neste ano que chega, as pessoas possam fazer as coisas da maneira correta. E quando não for possível fazer da maneira correta, corrijam a tempo de não criarem feridas.

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Sexta-feira, 26 de Outubro de 2007

|O 4º Poder, a Bienal e o Livro|

Porto Alegre esta em seu melhor momento cultural do ano.
Neste instante estão acontecendo três grandes eventos que fazem os Porto-alegrenses ficarem cheios de passeios agradáveis.

Na Usina do Gazômetro esta acontecendo a exposição No Ar – 50 anos de vida. Um belíssimo evento promovido pelo Grupo RBS alusivo ao cinqüentenário do Grupo. O vídeo que é apresentado é um show a parte e é simplesmente imperdível.

Em parte do Cais do Porto, no Margs e no Santander Cultural ainda esta acontecendo a 6º Bienal do Mercosul. Esta eu ainda não visitei mas a Bienal sempre é bem bacana.

Hoje é a abertura da 53º Edição da Feira do Livro. As pessoas insistem em chamar de feira, mas é na verdade uma grande festa do livro. As pessoas não vão à Feira propriamente para comprar, elas vão para conversar com o escritor, ver os personagens, passear entre as barracas, tomar banho de chuva e ate comprar algum livro.

A Feira do Livro de Porto Alegre é uma das mais antigas do País. Sua primeira edição ocorreu em 1955 com 14 barracas de madeira instaladas em torno do monumento ao General Osório. A infra-estrutura foi ampliada e modernizada, os eventos culturais se consolidaram e a Feira passou a receber grandes nomes do mercado editorial brasileiro e internacional.

A Feira não é só do livro, acontecem durante a feira sessões de cinema, shows, acampamentos, palestras e programas de rádio e tv são transmitidos de lá. Tudo embaixo dos Jacarandás da Praça da Alfândega e na Beira do Guaíba.

Antes do fim:


Falta bem pouco para o final do ano e ninguém, eu escrevi ninguém, sabe o que vai acontecer!!??
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Quarta-feira, 6 de Junho de 2007

|Baucis e Filémon|

Pra começo de conversa:
Como estou com postagens atrasadas, resolvi descarregar hoje. Seguem duas histórias bem bacanas que eu encontrei nas minhas navegadas pelo mundo virtual.

A primeira historinha serve para homenagear todas as pessoas que acreditam em Dia dos Namorados. Logo em seguida coloco uma homenagem a todas as pessoas que acreditam que podem resolver alguma coisa pelo tele-atendimento.

Querendo experimentar a bondade dos homens, conta a mitologia, Júpiter e seu filho Mercúrio tomaram um dia a forma humana e desceram a uma terra da Grécia chamada Frigia.

Bateram aí de porta em porta, pedindo agasalho; mas ninguém lhes prestou atenção, nem socorreu. Tendo procurado em vão despertar a piedade dos habitantes do lugar, chegaram enfim a uma pobre cabana de um casal de velhinhos, que os acolheu com doçura e caridade. Chamava-se a mulher - Baucis, e o marido – Filémon. Alimentando e confortando os forasteiros, nem o marido nem a mulher podiam de leve suspeitar estarem na presença de deuses.


Depois de ter repousado com o filho Mercúrio, Júpiter, ao sair, transformou a pobre cabana em um templo suntuoso e disse aos velhinhos maravilhados que poderiam pedir-lhe o que quisessem, pois tudo lhes concederia. Marido e mulher, dando-se as mãos amorosamente, pediram então que lhes concedesse a graça de não morrer um antes do outro...
E o pedido foi concedido.

Certo dia, quando já contavam idade bem avançada, estavam nos degraus do templo, narrando a história daquele lugar sagrado, quando Baucis viu brotarem folhas em Filemon e Filemon viu o mesmo fenômeno ocorrendo em Baucis. Ainda trocavam palavras de despedida quando uma coroa de folhagem brotou-lhes na cabeça.

- Adeus, amor da minha vida - diziam juntos e, no mesmo momento, o tronco se fechou em suas bocas. Os pastores da Tiania mostram ainda hoje as duas árvores - o carvalho e a tília - lado a lado como se estivessem namorando para sempre.

Antes do fim:
Achei este texto no site http://www.previdi.com.br/. Vale a pena ler!

O MITO DA CRIAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DE UMA ATENDENTE DE TELEMARKETING

No princípio era o Gerúndio. E Deus pegou o telefone e disse:
- A gente vai estar fazendo a Luz!

Mas a luz não se fez, porque uma atendente O mandou esperar na linha, por favor.
E Deus teve que aguardar um bilhão de anos, ouvindo Für Elise. E quando foi atendido, Deus repetiu:
- A gente vai estar fazendo a Luz! E isso vai estar sendo uma ordem!

E a voz do outro lado disse:
- Desculpe, Senhor, mas Luz não vai estar sendo neste setor. Eu vou estar encaminhando o Senhor para o setor de Fotogênese e Ontogenia.

E Deus deu cascudos em cinco anjinhos, criou o Oriente Médio e inventou a injeção de Benzetacil para descontar a raiva.
Então, esperou mais três bilhões, setecentos e noventa e nove milhões, três mil, trezentos e quatorze anos. Ao final dos quais, escutou:


- O Senhor está no setor de Fotogênese e Ontogenia. Para criar a Luz, disque 1. Para criar o sistema solar, disque 2. Para criar o homem, disque 3. Para saber a idade da
Hebe Camargo, disque 4. Para reclamações quanto à Criação, disque 5 ou aguarde que um dos nossos filósofos metafísicos vai atendê-lo.

E Deus apertou o 1 e esperou mais dois bilhões de anos, tempo este que usou para, como revanche, inventar o doce de melancia, os livros escritos por ex-prostitutas e o
sistema partidário brasileiro. Ao final daquele tempo, o Criador foi atendido:
- Pois não, Senhor, com quem eu estou falando?
- Com Deus, minha filha, o Onisciente, o Onipresente, o Onipotente. Mas pode me chamar de Magnânimo.
- E em que eu vou poder estar lhe ajudando, Senhor?
- A Luz, minha querida. Eu estou esperando na linha há não sei quantos bilhões de anos.
Quero estar criando a luz. Pode ser ou tá difícil?
- Só um milhão de anos, por favor, Senhor.
- Um milh...? Eu...

E Deus ouviu Für Elise por mais seis bilhões de anos, o que definitivamente contribuiu para, no futuro, Beethoven ter sofrido bastante e morrido surdo. E ao final deste período e de dialogar com mais de cem atendentes, finalmente teve seu pedido atendido.
E descontaram o valor da obra dobrado na fatura do Seu cartão de crédito e não deram os brindes promocionais, como as duas luas de Vênus e um anel a mais em
Saturno.

E Deus se vingou, criando a mensagem de celular fora da área de cobertura e a taxa por deslocamento.

Terça-feira, 22 de Maio de 2007

|O Caçador de Pipas|


Acabei de ler o livro “O Caçador de Pipas” de autoria do Afegão Khaled Housseini. Este é um livro mágico, daqueles que não se consegue parar de ler apesar de suas mais de 350 páginas.

O autor apresenta Amir, filho de um rico empresário afegão, que mantém sob seus cuidados Hassan, um garoto pobre de outra etnia, filho de um empregado da família. Apesar da fidelidade de Hassan, Amir abandona o amigo, tenta esquecer a culpa da traição e parte para os Estados Unidos depois da invasão soviética.

O livro mostra uma narrativa por vezes até excessivamente cinematográfica, parecendo que foi feito com o objetivo de virar um filme. Mas é possível visualizar as paisagens e as personagens com perfeição. Por vezes é inevitável inserir-se na narrativa, fazendo às vezes de Amir, outras de Hassan. O ponto fraco se dá no fato de o autor entregar o que vai acontecer, tornando o livro bastante previsível. Não é difícil imaginar o que vai acontecer na história.

Navegamos por variados sentimentos humanos: Princípios, lealdade, dignidade, covardia, coragem, respeito e honra. Mostra o arrependimento, a culpa, o sacrifício e o sucesso de Amir. Mostra com sutileza que dentro da sua simplicidade, Hassan demonstra a sofisticação dos seus sentimentos e a sua sabedoria. Mostra que existem diferentes maneiras de ser feliz e de encarar a sua realidade.

Monarquia, república, invasão soviética, guerra civil, Taliban. O livro mostra um Afeganistão já esquecido que eu nem cheguei a ouvir falar. Espera-se que o Afeganistão volte a ser àquela nação contada no início do livro, a Terra de Amir e Hassan,

Impossível não amar e odiar Amir, não sentir compaixão por Hassan. Impossível não torcer pelo futuro do Afeganistão. Emocionante.

Antes do fim:


O diretor de origem alemã, Marc Forster, de Mais Estranho que a Ficção (2006), acaba de finalizar o filme The Kite Runner, baseado no livro. O filme deve estrear em novembro nos cinemas Americanos e em janeiro do próximo ano no Brasil. Entre os produtores do filme esta Sam Mendes, diretor de Beleza Americana.

Segunda-feira, 16 de Abril de 2007

|Bebês|

Já faz um tempo que eu estava com este texto na manga para publicar e finalmente chegou a hora. Ele foi retirado do jornal Zero Hora hoje, eu achei super bacana o texto do cronista David Coimbra e assino embaixo. Afinal daqui a alguns meses vou ser titio e terei algumas festinhas pra ir.


Magrela é como chamo a Mariana Bertolucci, aqui do Segundo Caderno. Dias atrás, a filhinha dela, Antônia, completou um ano. Não pude ir à festa, tinha Feira do Livro, Café TVCOM e tal. Aí, no outro dia, a Magrela ralhou comigo:

Não foi, pelintra!

Fiquei chateado, pensando que a Antônia pode ter sentido minha falta e tudo mais, até que lembrei: ela estava fazendo um ano, pô!
Nem sabe que está de aniversário. Só que é impossível usar esse tipo de argumento com pais de nenês. Há muitos deles, aqui na Redação. A todo momento um diz:

- Já viu o meu bebê? Tens que ir lá em casa, ver o bebê.

Por que nunca ninguém aparece e me convida:

- Já viu minha prima? Precisa ver minha prima. Ela tem 19 anos, está voltando da praia agora. Bronzeadinha. Foi miss, inclusive. Ela passa o dia na piscina lá de casa, com aquele biquíni do tamanho de uma fatia de pizza onde não cabe meio tomate. Às vezes faz topless. Uma lindeza, minha prima. Vai lá em casa, ver a minha prima.

Mas, não. Para isso, ninguém me convida. Só me convidam para ver nenês e, se não vou, ficam brabos. Não é mesmo um Estado de intolerâncias?


Antes do Fim:
Eu e a Aline assistimos a peça Hamlet Sincrético a uns dias atrás e não cheguei a comentar aqui. Vale muito a pena assistir, a peça é bem fiel ao texto de Shakespiere mesmo sendo ambientado em um cenário de cultura afro-brasileira. Abre a cabeça e vai quando voltar a cartaz.

Sexta-feira, 29 de Dezembro de 2006

|Receita de ano novo|

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)


Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.


Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Antes do fim:

A poesia acima é de autoria de Carlos Drummond de Andrade.

Um ótimo novo ano a todos os leitores deste blog. Muda o ano, nada muda, mas esperamos que sempre melhore alguma coisa.

Quarta-feira, 20 de Dezembro de 2006

|Inimigo Secreto e Natal|

-Dá pra trocar?
Não, Mariana, dessa vez não dá. Todo mundo lembra que no ano passado você devolveu quatro vezes o papelzinho até achar um nome que fosse da sua panelinha de colegas. E a idéia do amigo-secreto é justamente a integração. Como se não bastasse ter feito isso, você ainda saiu contando pelos corredores que escapou de tirar o chato do Marcelo, o panaca do Augusto e o idiota do Luis.
-E quanto é o valor do presente?
Ô, Mariana, parece que você nasceu ontem. Todo mundo sabe que a moeda oficial dos amigos-secretos é o valor de um CD. E todo mundo também sabe que isso é apenas um referencial fictício. Se você tirar alguém legal, vai ter que comprar algo melhor. E se você der um cheque-CD, o presente mais impessoal da face da Terra, provavelmente vai comprar o de valor mais barato e obrigar a pessoa que ganhou a completar com mais dinheiro na hora da troca. Um presente de grego.
-Quem é uma tal de Mara?
É aquela recepcionista da manhã que você nunca cumprimenta. Mas não se preocupe, Mariana, que muita gente também não sabe direito o seu nome. Você nunca perde seu precioso tempo conversando com os colegas no café. Frequenta só a roda da diretoria. Não faz questão de indicar um filme bom que está passando no cinema ou de trocar uma receita. Não comenta amenidades sobre a previsão do tempo, a rodada do brasileirão e o horóscopo.
-Vai ter aquela balela de descrever o amigo?
Querida colega, a entrega descritiva está para o amigo-secreto assim como o peru está para o Natal. Gerações e gerações de trabalhadores já tiveram a alegria de descrever um colega com palavras espirituosas e emocionadas. Muitas amizades fora do horário comercial surgiram daí. Desse jeito, vão acabar descrevendo você como a criatura mais antipática da firma. E se você quiser dar a sua contribuição, Mariana, vê se no ano que vem participa do grupo que organiza a festa e o amigo-secreto.
-Azar se for homem ou mulher. Vou passar adiante aquele presente ridículo que eu ganhei…
Ótimo, Mariana. Assim você vira a inimiga-secreta número um. A colega que presenteou o respeitável senhor da manutenção com um creme pós-depilatório. A pão-dura que recicla presentes e nem se dá ao trabalho de desamassar a embalagem. Só não esqueça que pela mesma lógica você pode receber um lindo aparador de cabelo no nariz.
-O quê! De novo festa em sítio?
Por mais que você não goste, Mariana, muitas pessoas adoram o ar do campo. E no ambiente corporativo, algumas coisas são sacramentadas. Festa de fim de ano em sítio. Cafezinho em copo plástico para os de dentro e em xícara para os de fora. E-mail com corrente, vírus e mulher pelada.
E quer saber de uma coisa, Mariana? Vou devolver meu papelzinho agora. Tirei você, sua mala.
É Natal
1.Por motivos de ordem prática, a Mamãe Noel deu seu presente mais cedo para o Papai Noel: um lindo celular vermelho com cobertura global e o Jingle Bells de musiquinha. Ela sabia que ele era avesso às novas tecnologias – com tantas companhias aéreas, ainda preferia voar de trenó. Mas era o único jeito de garantir o seu Natal. Mamãe Noel estava cansada de comer o peru sozinha – e um peru tostado, de tanto requentar. Agora o Papai Noel podia telefonar para ela quando saísse da última chaminé, avisando que estava quase chegando em casa. Mesmo com o celular novo, Mamãe Noel esperou, esperou e nada. O peru torrou de vez. Nem os duendes quiseram comer. Como o Papai Noel andava meio distraído ultimamente, Mamãe Noel resolveu ligar. Atendeu uma voz de mulher. Vai explicar que era a rena do nariz vermelho, sempre solícita.
2.Na casa dos Nunes, os costumes natalinos eram diferentes. Depois de muitas festas que não deixavam nada para se pensar a não ser quem ia entrar no negativo do banco primeiro, os Nunes decidiram radicalizar. Como eles odiavam o lado comercial da data, inventaram uma comemoração que mais parecia um ritual de libertação. Depois da ceia, que era igual à de todas as outras famílias, os Nunes trocavam presentes vazios. Do lado de fora, embrulhos feitos com muito carinho, laços e fitas combinando com a cor do papel. E do lado de dentro, nada. Os Nunes abriam os presentes vazios, se abraçavam, se felicitavam e mostravam uns aos outros as embalagens que ganharam como se fossem os presentes mais bonitos do mundo. E eram.
3. Naquele ano, o Shopping bolou uma promoção diferente. Enquanto seus concorrentes prometiam sorteios de carros e DVDs nas compras acima de sessenta reais, o Shopping ia dar aos adultos um presente inesquecível: voltar a sentar no colo do Papai Noel. A idéia era boa, nessa época todo mundo ficava emotivo e a nostalgia seria uma excelente estratégia de vendas.
Sob os olhares perplexos das crianças, os adultos passaram a entrar na fila em bandos. À medida que se aproximavam da imponente poltrona de veludo vermelho, seus olhos começavam a brilhar de novo. E quando viam bem de pertinho o Papai Noel, o surpreendente acontecia: os adultos iam até o lugar onde os bebês deixavam suas chupetas e mamadeiras e largavam ali suas carteiras de cigarros e suas multas de trânsito. Tiravam fotos, sorriam, regrediam e cresciam ao mesmo tempo. A promoção foi um sucesso. No ano que vem, o Shopping só precisa contratar um Papai Noel com pernas mais fortes.
4.Marquinho acordou no meio da noite para tomar água e resolveu ir sozinho até a cozinha. Ele já era um moço, foi o que disse o Papai Noel algumas horas antes. Por isso, não precisava nem acender a luz. No meio do caminho, o menino ouviu um barulho estranho e já ia gritar manhêêêêê quando a encontrou na frente da geladeira, nua, aos beijos com ninguém mais, ninguém menos que o Papai Noel. Como os dois podiam fazer aquilo com seu pai? E com a Mamãe Noel, que deveria estar sozinha na Lapônia? Marquinho tapou sua boca para não gritar e correu em direção ao quarto do casal. O pai não estava lá. Quem sabe ele foi sequestrado pelas renas, para deixar o caminho livre para o tarado do mau velhinho? E pela bagunça que estava a cama, ele deveria ter lutado muito. Pobre pai! Será que ele conseguiria fugir com aquele monte de neve?
Na cozinha, a mãe do Marquinho tirava a roupa do Papai Noel e já fazia planos de fantasiá-lo de coelho na Páscoa. Há quanto tempo os dois não se divertiam tanto?

Antes do fim:

O texto acima é de Magali Moraes e foi retirado do site www.ipanema.com.br. Magali Moraes é publicitária e escritora. Publicou os livros Buffet e Quem nasceu para cintilante nunca chega a francesinha. Colunista da revista Advertising e do site www.argumento.net

Terça-feira, 31 de Outubro de 2006

|Aconteceu|

Mesário
Passei mais um domingo (e espero que seja o último) trabalhando de graça como mesário. Sempre detestei trabalhar em coisas que não gosto no domingo. Prefiro eu mesmo escolher minhas atividades dominicais. Nada de extraordinário aconteceu, tudo correu na mais tranqüila monotonia. Eleição chata é apelido.

Cinema
Finalmente fui assistir a animação Wood e Stock – Sexo , orégano e Rock n’ Roll. Eu esperava bem mais, realmente a propaganda é ótima. O desenho é para adultos e poderia ser classificado como erótico e passar no Cine Prive. Tem ótimas piadas mas o humor é meio cabeça demais pras besteiras que acontecem na tela. Se você curte uma viagem, fume um baseado ou tome um chá de cogumelo antes de assistir. Pipoca não faz o efeito necessário.

O Retorno
Há muitos e muitos anos atrás, quando algumas pessoas ainda acreditavam em alguns políticos e balançavam as bandeiras nas esquinas de Porto Alegre as eleições eram muito mais interessantes. Nos dias atuais, tudo é por dinheiro, e eu é que não balançaria bandeira por alguém que acoberta pessoas que carregam dinheiro na cueca ou em malas. Incrível como tudo perde o sentido.

E o Lula foi reeleito, com uma maioria ainda maior do que a de 4 anos atrás, antes de sabermos que o PT também rouba, antes de sabermos que o PT também faz acordos obscuros, antes de sabermos que o PT não tinha nada de diferente dos outros.

Livros do Post
Para quem gosta de ler e não tem acesso a uma biblioteca ou não tem grana pra comprar livros uma bela pedida é o site www.portaldetonando.com.br que é uma biblioteca virtual muito interessante.

Para que esta em Porto Alegre ou arredores, a pedida é comparecer na Feira do Livro e prestigiar os livreiros. A feira acontece até o dia 12 de novembro. Procure no Google por "Feira do Livro", encontre o site oficial e confira a programação completa. Te vira!